segunda-feira, março 28, 2005

quinta-feira, março 24, 2005

Da não-trivialidade da falta do eurocomputador

Voltando ao assunto de 11 de março. Passei o pente fino no Old-Computers.com e achei coisíssima nenhuma que pudesse desmentir a afirmação: a Europa continental ainda não lançou um sistema de computadores bem-sucedido. Voltarei ao assunto.

Hoje mesmo, 24 de março

Dez anos de minha formatura. Minha única formatura.

segunda-feira, março 14, 2005

e-mail via celular

A novela ja tem o inconfundivel odor de farofa azeda. Sol nao conseguiria visto nem pro Paraguai.

sexta-feira, março 11, 2005

A Europa continental já lançou um sistema de computadores bem-sucedido?

Essa não é uma questão trivial. Sozinho, o Reino Unido emplacou uma série de sistemas, principalmente na era oito bits, tanto para consumo interno quanto para exportação. Linus Torvalds começou num deles, o Sinclair QL, que nem foi exatamente um sucesso.

Onde estava a potência econômica, política e cultural do resto da Europa (dispenso especulações do tipo "Reino Unido não é Europa") na realização de seu próprio sistema de computadores, unzinho que fosse, quando havia a janela de oportunidade para tal? O problema não era de falta de demanda: os euro-usuários abraçaram avidamente plataformas estrangeiras, pela porta da frente (no Ocidente) ou através da clonagem deslavada (no lado de lá da Cortina de Ferro).

quarta-feira, março 09, 2005

Pensamento do dia

Severino Cavalcanti não deve ser assim tão mau. O MR-8 o ama.

terça-feira, março 08, 2005

Por que não há mais abertura do Fantástico?

Quer dizer, nem do Fantástico, nem da maioria dos programas. É o que veremos.

sexta-feira, março 04, 2005

Anos Oitenta, ainda (II)

... E volto ao assunto. Enquanto os autores do Almanaque erguem altares aos elementos consumíveis que, por experiência própria, mexem com o moleque travesso do subconsciente, passam batidos por muitos outros. Não é que os tenham cortado de vez: são citados, sim, mas de raspão, praticamente em listas nominais (pior ainda, difíceis de ler naquela fonte e naquele formato), e sem que ninguém precise nem entrar no mérito de sua importância para o conjunto da obra. Não há escassez de cobertura sobre Xuxa e Menudo, com justíssima razão. Computadores brasileiros de oito bits, empulhações pirateiras que poucos meninos ricos tiveram, merecidamente não receberam mais de uma página, por mais que protestem os colecionadores fanáticos. Mas nem mil páginas sobre os discos de ouro da Rainha dos Baixinhos, nem a supressão total da menção aos micros nacionais, supriria a grande lacuna do livro: o picadinho de lembranças não consegue formar um conjunto que desenhe uma Cultura (não a TV desse nome) oitentista. Por isso é que os elementos não passam de consumíveis. Como se surgissem do nada, aparecem na História dos humanos quando o leitor saudosista se entende por gente (é o tempo em torno do umbigo) e "acontecem" nos anos 80 na medida em que têm algo como um prazo de validade -- o vinil é desbancado pelo CD, as meninas passam da idade de brincar de boneca, Armação Ilimitada é cancelada etc.

Em resumo, a geração que sujava as calças no jardim de infância nos anos 80 atinge poder de decisão e poder de compra. O que essa turma lembra daqueles tempos? Como se lembra? E o que a leva a crer que o universo se resumia àquilo?

Se tivesse que encarar a sério essas perguntas, o Almanaque não tiraria tantas edições.

quinta-feira, março 03, 2005

Anos Oitenta, ainda

Agora, sim, não posso ser acusado de fazer juízo sobre o Almanaque Anos 80 sem ter o livro (obrigado, Xuzinha!). Os errinhos de revisão foram o penúltimo problema da obra: muitos dos quais os não-cariocas nem perceberam. É preciso reconhecer o esforço dos autores, não somente em juntar um monte de lembranças e figurinhas da tal década perdida, mas em editá-las como um retrato inconsciente do etos nacional de hoje, que é o mesmo dos anos 80 e já então era velho a perder de vista. Primeiro, os autores só se lembram de coisas fofas que cercavam seus umbigos. Ainda estou para ver um livro saudosista-oitentista lembrando do tempo em que grandes luminares de segundos cadernos acreditavam (e faziam a galera acreditar) que a União Soviética era uma realidade eterna e inderrubável. E mesmo no conjunto das coisas fofas eles são altamente seletivos: exaltam uns itens sem quê nem porquê, ainda que nem sejam tipicamente anos 80, desde que despertem as reações certas nas pessoas certas ("Eu vivi nos anos 80 e tinha"). Depois tem mais...

quarta-feira, março 02, 2005


Sorria! Posted by Hello

terça-feira, março 01, 2005

Não posso elogiar

Pelo menos uma coisa boa do Blogger nos últimos tempos: o BlogThis!. Rapidinho e funcional, tudo que a interface "normal" de publicação do Blogger sempre quis ser antes de matar o usuário de tédio. Como o Blogger já era lento no tempo pré-Gúgol, o esperto Marcelo Cabral inventou o programeto W.Bloggar, que continua funcionando maravilhosamente bem, exceto que nem sempre os posts saem publicados exatamente em tempo real, se é que você me entende...

Utilidades para a tecla SAP

Na entrega do Oscar, o SAP da Globo silencia Renato Machado, Elisabete Hart e José Wilker. Isso é que eu chamo de marketing às avessas. Pensei que a TV a cabo existisse para etc. etc.

E não há SAP para amordaçar o Galvão?

Callithrix jacchus

Descobri o nome do bichinho fofo da sessão fotográfica de posts anteriores. Mais conhecido como sagüi-de-tufos-brancos. Não é espécie nativa. Costuma ser comprado, clandestinamente, é claro, no Nordeste, quando ainda é um bebê-sagüi dócil, bonitinho e adorável. Trazido para o Sulmaravilha, o bicho costuma ser dispensado pelo dono quando atinge a adolescência (o bicho, não o dono), pois fica barulhento, hostil e malcheiroso.

Enfim, o sagüi é muito gente.

Breve, mais fotos da espécie menos selvagem que passa pela janela de casa. Adolescente ou não, o Callithrix jacchus não canta funk em altos brados, não cheira solventes, não grita vinte vezes a mesma frase na esperança de que o interlocutor a entenda, não suja a rua, não anda em grandes e temíveis bandos, não gosta de se mostrar à toa.

sábado, fevereiro 12, 2005


Da série "Monumentos da Indústria Nacional". Posted by Hello

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Down with Primitivism

Enquanto Aldo Rebelo e sua turma permitirem, leiam, leiam, leiam.

Astrologia

Neguinho superestima o que só conhece de uma coluna de segundo caderno.


Mas com uma certa paciência consegui até que ele olhasse para a câmera! (atenção, patrulha politicamente correta: o animal das fotos NÃO me pertence e este blog NÃO se destina a oferecer animais selvag... digo, silvestres para laboratórios de biopirataria) Posted by Hello


As fotos foram tiradas da janela de casa. O animalzinho é muito arisco; clicá-lo paradinho foi uma façanha. Posted by Hello


ATRAIA AUDIÊNCIA AO SEU BLOG: MOSTRE UM BICHINHO FOFO
Já que todo mundo faz isso, por que não eu? Posted by Hello

terça-feira, fevereiro 08, 2005


NOVA ORLEANS - Torcedores do Império da Casa Verde ocupam as ruas numa enlouquecida comemoração em estilo franco-americano da vitória de sua escola de samba favorita. A farra anual, chamada por analistas franceses de "terça-feira gorda", já está se tornando uma tradição de Nova Orleans, sempre coincidindo com o dia da apuração das notas do Grupo Especial paulistano. Posted by Hello

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Gringos são um bando de lixos humanos depravados recheados de dinheiro

Venha ao Rio de Janeiro! Seja estigmatizado pelos nativos por sua raça (como no nazismo, só que, desta vez, contra os caucasóides), por sua nacionalidade (como no fascismo) ou por sua classe relativamente endinheirada (como no comunismo). Veja como a raça/nacionalidade/classe aborígene fará tudo para juntá-lo com belos(as) garotos(as) e separá-lo de sua sagrada moeda forte. E, depois que seu dinheiro acabar, seja atirado na Baía de Guanabara, destino de tudo que é lixo.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Tá gordo(a)

O site de um grandíssimo banco brasileiro pede donativos em dinheiro para a tsunami. Digo, lá saiu "o" tsunami.

Donativo para o(a) tsunami. Entenderam? Qual é a conta corrente da onda gigante? E como ela faz para movimentar seus fundos, no bom sentido, é claro?

E, a contar pela solidariedade internacional, um cearense veria a riqueza do(a) fenômeno(a) da natureza e diria: "Tá gordo(a)".

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Cegos, surdos e mudos

Diferentemente do que o Itamaraty imagina dos candidatos ao Instituto Rio Branco, eu ficaria tristíssimo se só soubesse português na minha vida. Receberia docilmente as engabelações dos tradutores de filmes sem qualquer argumento para contestá-las. Leria o que estivesse nos catálogos dos editores brasileiros, uma maçonaria onde esquerdismo é requisito, e não leria o que os desagradasse. Teria chances reduzidas de conversar com outras gentes, de outros povos, de pensamento diferente do unanimismo imperante na Pátria Amada. No mundo dos computadores, em geral, e na Internet, em especial, mal posso imaginar a desgraça. Portais anacrônicos e confusos, nivelados por baixo em seu noticiário apelativo e tendencioso, coligados a sites dolorosamente superficiais e amadorísticos. Isso quando se sabe português. Faz tempo que a língua oficial do Brasil se tornou opcional onde os brasileiros tomam conta: salas de bate-papo, blogs, fotologs e Orkut, não necessariamente nesta ordem. O dialeto do "pow kra blz vlw", ostentado com a soberba dos caipiras chiques, leva às cambalhotas o sofisma do pensador marxista que sempre convenceu meio mundo de que elite "fala bem" e computador é coisa de elite.

Da mesma forma, o "dom das línguas" tem pouco a ver com poder ou riqueza. Em certo período, trabalhei prestando serviços redacionais ao departamento de marketing de uma grande distribuidora de sistemas de informática megacorporativa. Só clientes enormes: bancos, indústrias, redes de lojas. O logiciário vinha dos Estados Unidos, dificilmente em alguma língua diferente do inglês. Mas o material de marketing para vendê-lo tinha que ser escrito em português irretocável, o que demandava um grande trabalho de tradução. A distribuidora conhecia melhor do que ninguém o nível lingüístico de seus clientes e admitia tacitamente que os tomadores de decisão da informática brasileira, responsáveis pela aquisição de sistemas de milhões, não tinham fluência suficiente na língua que toda empresa exige de qualquer candidato a auxiliar de escritório.



quarta-feira, janeiro 26, 2005

Resende Blues

Você sabe que está em Resende quando, às cinco para as onze da noite, um carro com cinco pessoas pára em frente a um restaurante e o garçom atravessa a rua para dizer à galera: "A cozinha já fechou. Podem ir embora daqui!"

FAQ de Resende: 1) Sim, é Estado do Rio. 2) Uns 200 km da capital carioca, uns 300 km da capital paulista. 3) Penedo, Itatiaia e a fábrica da Volkswagen ficam em outros municípios. 4) Sim, estão fazendo uma bomba atômica em Resende, e daí? Morei lá full time dois anos e meio e estou mais preocupado com as armas de aporrinhação em massa.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Malditos argentinos!

Chega de crucificar os hermanos por alguma coisa relativa a água, doping e 1990. Os argentinos salvaram a Copa da Itália.

Provavelmente aquela malandragem da água que Branco não bebe foi a única coisa divertida daquele Mundial, o maior fiasco da seleção brasileira em meu tempo de vida, até porque ao som daquela musiquinha nojenta ("papa essa, Brasil, papa essa, Brasi-illl...") não se ganharia nem um campeonato de totó/pebolim. Em tempos de Plano Collor, as agências de viagem ofereceram zilhões de pacotes turísticos/futebolísticos que ninguém podia comprar. Uma chave importantíssima, terminou a primeira fase em total empate, decidida no sorteio.

Há quem diga que a Copa começou bem: a Argentina perdeu para Camarões no jogo de abertura, o que rendeu aos camaroneses o respeito eterno da torcida canarinho, mas com isso o Brasil não subiu um pontinho sequer no ranking da Fifa. E a Argentina usou métodos farmacêuticos e venceu o Brasil (não necessariamente por causa dos tais métodos), mas morreu na praia; nem me dou ao trabalho de ver no Gúgol para quem foi a derrota. Antes a "mão de Deus" de Maradona levara ao título. A obra do Senhor se mostrou bem melhor que a obra do doutor.

E não custa perguntar: já que Branco ficou tão mal em campo depois de beber a água dos argentinos, como é que em quase quinze anos ninguém tinha notado coisa alguma antes das revelações do técnico Bilardo e daquele gordo fanfarrão adorador de Che Guevara que atende pelo mesmo nome do grande jogador que foi Maradona? Quaisquer que tivessem sido os efeitos do remedinho, não faltaram testemunhas. Só no Brasil uns cem milhões assistiram ao jogo. Em 1998, os torcedores souberam com antecedência que alguma coisa muito estranha tinha acontecido com Ronaldinho. Por isso, bastou que o jogador botasse o pé em campo para que todos notassem que ele ainda estava passando muito mal, ou estava sob efeito de uma droga muito forte, ou as duas coisas.

Cansei de ver o roto cobrar fair play do esfarrapado. Há uma grande chance de a Argentina ter vencido aquela partida por ter jogado melhor.

São Paulo

Nenhuma foto. Esqueci de levar a câmera.

Finalmente vi Gil Gomes ao vivo. Ele e meia dúzia de carros da polícia na Avenida Paulista. Mas não era só lá: a PM de São Paulo é muito mais visível. Se bem que visibilidade não paga dívidas.

O transporte continua ruim, mas não totalmente. O metrô, a R$ 2,10, superou os dois reáu do Rio e ainda imitou dos cariocas o programa Desconto Zero -- se o bilhete duplo custa R$ 4,20, qual é a vantagem? Pelo menos estão mesmo construindo novas linhas (e sem grandes transtornos), o que sempre surpreende quem é do Rio. Andei naquele ônibus com portas à esquerda e que anda num corredor expresso. Ambos (o coletivo e o corredor), surpreendentemente, funcionam. Táxis continuam caríssimos.

Um cartão postal enviado na quinta-feira chegou ao Rio no dia seguinte.

O café expresso do Floresta continua insuperável. Mas só para quem gosta de café forte. De qualquer forma, a vida é muito curta para café fraco.

Vi um pedacinho pouco relevante da Cultura, quase todo o Promocenter, e não passei da metade do Stand Center por falta de tempo.

Orelhões em pane. Cartões da Tele-Afônica não eram aceitos, ou custavam a ser lidos, ou completavam ligações que não duravam mais de um segundo. À tarde ou à noite, local ou interurbana, a caca era a mesma. Alguém acha que a Tele-Afônica está preocupada?

O que é Expresso do Sul? Lembra daqueles velhíssimos ônibus Cometa da linha Rio-São Paulo? Desde a "repaginação" da Cometa, é a Expresso do Sul que faz a mesma linha de antigamente com os mesmos ônibus do tempo que Brigitte Bardot dava um caldo -- praticamente, só mudou o nome. Mas o ônibus executivo da mesma empresa é novinho e é bem mais confortável que o Itapemirim equivalente. E ainda custa um pouco menos.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Mais declínio da macumba

(desta vez, sim, concluo o raciocínio...)

Em meus tristes dias de adolescente, foi com grande interesse que vi todos os capítulos de uma minissérie da finada Manchete onde o candomblé "ortodoxo" da Bahia desmascarava a si mesmo com o maior orgulho. Revelava-se como intrinsecamente indiferente ao cristianismo, o que deixou de queixo caído quem ainda tinha alguma dúvida disso, ainda que não propriamente anticristão. O recado estava dado: ou o indivíduo é cristão, ou é candomblecista. Quando santos e orixás dividem o mesmo espaço, não se pode levar nem uns nem outros a sério.

Aí vem a umbanda, que é outra coisa, de outra origem (provavelmente a maior contribuição do eixo Niterói-São Gonçalo à religião mundial desde o batismo de Araribóia -- e o próprio Araribóia, como entidade, foi incorporado à umbanda) e procura abarcar tudo: uma base de origem africana com santos católicos e elementos rituais indígenas.

Na parte puramente antropológica do fenômeno, tudo bem: considere-se a umbanda como expressão religiosa de uma sociedade miscigenada e avessa a radicalismos. Mas fé é como personalidade: quem diz que tem mais de uma certamente não tem nenhuma. Posso dar um desconto se o sujeito ainda não souber que aquele culto que pratica inocentemente, herdado de seus pais e avós, abriga elementos mutuamente excludentes (quer dizer, não confundam com os pregadores evangélicos que esbravejam que é tudo "coisa do capeta"). Pouco provável num tempo em que até as "classes oprimidas" têm celular e qualquer favela está apinhada de antenas parabólicas. Essa é que é a verdadeira falta de espaço para os cultos afro-brasileiros.

Fora isso, só há a masturbação intelequitual de quem não leva religião a sério e, ao mesmo tempo, acha que "excluídos" não podem, não devem ou não merecem ir além da macumba que praticam. Afinal, para os membros da intelligentsia, nada como descer de seu apartamento à beira-mar, jogar sidra Cereser na areia e dizer que entrou em comunhão espiritual com o proletariado...

terça-feira, janeiro 18, 2005

O declínio da macumba

Voltando tardiamente ao assunto... Não sou eu que chamo aquilo de "macumba", pois sei bem que nem tudo é igual nos cultos afro-brasileiros. Quem gosta de falar em "macumba" são os pastores evangélicos, pelo menos os que conhecem mais dos terreiros e tambores do que eu, e quanto mais conhecem, mais babam de ódio contra aquilo tudo. O que é problema lá deles.

A matéria anteriormente citada revela, muito de passagem, um motivo importante pelo qual os cultos afro minguariam mesmo que os pastores não mexessem um dedo ou pronunciassem uma sílaba. O espaço para os terreiros diminui. Não é só o espaço físico que está em falta: os brasileiros estão vivendo num ambiente que não é o de seus ancestrais. Ainda bem. (continua...)

terça-feira, janeiro 04, 2005

Diversões divertidas

Contra Fortaleza

As opiniões de Rogério Prado, copiadas-e-coladas dos comentários do puragoiaba, não refletem necessariamente as deste humilde blogueiro, mas aqui vão...

Quero ver o sujeito que "adora" o calorzinho de Fortaleza pegar diariamente, o ano inteiro, quatro ônibus lotados para ir e voltar ao trabalho sob uma temperatura de 35 a 40 graus.

Vir aqui de férias e se deitar feito um réptil imbecil (como suportam isso?) sob o sol e depois entrar no carro com ar-condicionado e voltar para o hotel com ar-condicionado é moleza. QUERO VER VIR MORAR AQUI!

Mas, aproveitando o mote, não venham a Fortaleza, nem de férias:

1) O povo daqui é, em grande parte, chato (o excesso de cordialidade e de informalidade daqui é terrível) e feio (aqui eu me incluo).

2) A famosa cultura local é um lixo (logo na chegada ao Aeroporto Pinto Martins, grupo de forró vai lhe enfiar um chapéu de palha na cabeça - não há como fugir disso). O tão propalado celeiro de humoristas é uma balela (e mesmo que não fosse, que mérito teria uma cidade por ser um celeiro de homoristas? Ainda que fosse um celeiro de físicos nucleares...) O único e último humorista cearense de talento foi Chico Anísio. Não pensem que vão encontrar grandes shows de humor aqui.

3) Cidade cuja economia depende do turismo normalmente é um antro de prostituição e gatunagem (nesse segundo aspecto estão inseridos desde mirins de praia até os donos das barracas de praia - nem queiram saber quanto custa um côco verde se você tiver um sotaque chiado).

4) A cidade é suja. Fazem o possível para esconder isso dos turistas e até conseguem, em parte. Um olhar mais cuidadoso para debaixo do tapete e eis o lixo escondido.

5) Normalmente o sujeito vem do sudeste disposto a descansar no paraíso e curar-se do estresse causado pelo ritmo da grande cidade. Pode trazer seus comprimidos. Duvido que o trânsito de São Pualo seja mais barulhento que qualquer ruela de Fortaleza. Em cada calçada de bar, em cada esquina, em cada residência, na periferia ou na orla, alguém estará com um aparelho de som (normalmente um rack de caixas acoplado na traseira de um automóvel) tocando um forró (da pior qualidade) a 500 decibéis. E se você ligar para o serviço de Disk-silêncio da prefeitura eles dirão que, devido à demanda, sua ocorrência só poderá ser atendida em cinco ou seis horas, tempo maior que a vida da bateria usada para alimentar as caixas de som do veículo.

6) Quando você vir na TV um turista em Fortaleza dizendo "isso aqui é ótimo! essa cidade é linda! o povo é maravilhoso", pode ficar certo de que ele está bêbado demais para dar uma resposta racional.

Aos amigos, sinceramente: nunca venham a Fortaleza.

Minhas férias na fazenda

O título explica por que os telefonemas de Feliz Ano Novo para o celular não foram atendidos. A cobertura não é tão boa quanto dizem... Quer dizer, aquilo é um município?

Jornal preocupadinho com o declínio (discreto) do interesse pelos cultos afro-brasileiros. É óbvio. Nem mesmo o reveiom de Copacabana, modelo para todos os outros, continua sendo uma festa propriamente religiosa: vai-se lá porque dizem que é "in", é bonito, é grande, é grátis e beija-se muito na boca. Quem pratica seu ritual a sério vai a outras praias ou vai mais cedo. Diz a militância politicamente correta que a culpa é das seitas evangélicas, "culpa" porque os intelequituais supõem que os indivíduos afro-brasileiros devam seguir inexoravelmente a fé de seus ancestrais. Vai nessa. Amanhã voltarei ao assunto...

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Anos 80: o argumento definitivo

Por que ninguém lembra que em dezembro de 2004 completam-se vinte anos do lançamento d'O Planeta Diário?

Eu li aquilo e caí de costas.

Anos 80

Aquele Almanaque Anos 80 tem um algo a mais.

Folheei na livraria. Em três páginas achei uns cinco erros, principalmente de datas. Um dia passarei um pente fino. Não, não, não... É isso que os autores esperam que eu faça.

Mas não eram erros assim tão pouco óbvios para quem já tivesse saído do maternal "naqueles tempos". Não venham me dizer que já não existia Clube do Mickey na TV do Silvio (SBT, TVS, algo assim) em 1981, se bem que o único Clube do Mickey que prestava era o da Tupi -- o homem do Baú só se interessava pelos desenhos e os programadores pareciam trabalhar muitas doses acima da Humanidade (Clube aos sábados. Não preciso explicar.)

O problema é que dos anos 80 todo mundo era criança demais para se lembrar de alguma coisa ou velho demais para levar aquilo lá a sério. Nada que mereça um revival honesto. Por que é que ninguém lembra os oitentas como "a década em que me paparicavam"? "O tempo em que eu ia pro jardim de cueca branca e voltava de cueca marrom"? "A etapa da minha vida em que me convenceram de que a União Soviética era eterna"?

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Dejeto experimental

Uma das desgraças da minha vida acadêmica foi ter feito mesmo, não copiado-e-colado ou equivalente, meu projeto experimental em jornalismo. Era só um TCCzinho muito chulezento, muito distante de uma tese.

Fi-lo sobre BBS, em 1994, crente que algum professor fosse saber do que eu estava falando. Por que eu não traduzi aquele folheto da Compuserve e não juntei o documento oficial da FidoNet para compor um trabalho original? Em vez disso, passei as noites queimando as pestanas diante do monitor e os dias mendigando impressoras dos "muy amigos", pois impressoras que funcionassem estavam totalmente fora dos orçamentos meu e da faculdade.

Se tivesse investido na praia metade do tempo que desperdicei para tirar um 10 unânime, quando um 6 teria me conduzido ao mesmíssimo diploma, hoje seria bodyboarder profissional, ganharia mais que suas incelênças os professores, e ainda produziria mais vitamina D.

OK, não foi nenhuma façanha histórica defender meu trabalho diante da banca. Tive que esclarecer que não havia uma ética na pirataria em si, mas sim uma eticazinha entre piratas e piratas (uma série de leis não escritas, principalmente a que proibia vender programas "genéricos" para amigos). E tive que ouvir de um professor, no names, please, que era óbvio ululante o "fundo moral burguês" nos métodos do shareware/freeware como contraponto à tal ética pirata, pois o ambiente BBSiano era inexoravelmente burguês pelos motivos tão bem expostos nas páginas anteriores do projeto etc. etc. Depois dessa, nunca mais falei de burguesia a sério, nisso concordando totalmente com o Xandelon. Nas palavras, não no sentido, o refrão de Cazuza estava certíssimo: "burguesia" fede.

Por essas e outras, não me peçam para ler o trabalho. Descontando o estritamente factual, rejeito 95% do que ali está. Quando cheguei ao fim, já tinha sérias dúvidas sobre a linha condutora do início.

O relatório final da banca também recomendou a publicação do trabalho. Se foi publicado mesmo (em papel, nada de Internet ainda), não me avisaram nem depositaram os royalties. Escapei desse vexame.

domingo, dezembro 12, 2004

Supermercados Guanabara

Uma instituição de preços baixos do subúrbio carioca. Não há no Centro ou na Zona Sul, onde o espaço é pouco e o metro quadrado é caro demais, não exatamente por falta de demanda. O mais próximo, dependendo do ponto de vista, fica em Vila Isabel. Quando entrei lá, saíam dois amigos que moram em Ipanema. Não entrego os nomes nem sob tortura. Motivo: tudo é, ou era, ou costumava ser muito barato. Hoje estava vazio. E estava mais caro do que de costume. Na próxima o Mundial me espera.

Em todo caso, quando da assinatura da aliança Sendas-Pão de Açúcar, Abílio Diniz acusou as redes Guanabara e Mundial, dando os nomes, de fazer concorrência desleal na base da sonegação. Tenho que admirar o Pão de Açúcar. Em São Paulo é uma onipresença muito bem-vinda. Tudo sempre fresquinho e arrumadinho. Muitas lojas funcionam 24 horas, o que custa uma fortuna de operação, mas respeita o ritmo de trabalho esquisito de muita gente da cidade grande. E sabe defender (pelo menos) seu edifício-sede da única forma possível, para a tranqüilidade de seus funcionários e dos transeuntes inocentes; ladrões e terroristas sentem o drama, mantêm-se longe e ninguém sai ferido. Mas no que fere o bolso do cliente, se o Pão de Açúcar e seus penduricalhos conseguissem fazer o mesmo que o Mundial e o Guanabara, Abílio ficaria tão mudo quanto a estátua do Borba Gato. Não duvide.

Dantesco

O sistema de posts no Blogger via email é de lascar. Além de bagunçar os acentos, só publica quando quer. Por isso alguns posts tinham saído duplicados (já corrigi): pensei que tivessem sucumbido ao buraco negro das mensagens e insisti nas tentativas. Sou mais o Multiply, recomendação cordial aos 17 leitores que não se mexem nem para um comentariozinho.

terça-feira, dezembro 07, 2004

Mickey de luto

A morte de Vovo' Stella e' uma perda irreparavel para a cultura nacional. Nao fosse essa nota funebre, ninguem mais ia se lembrar do tempo em que ir a Disney pela Stella Barros voando Pan Am ou Varig, com uma provavel esticada em Nova York, era o supremo sonho de consumo. Isso quando a concorrencia era pouca, as operadoras de turismo nao iam muito a falencia, e um voo Rio-Miami-Rio numa empresa aerea vagabunda (como se isso fizesse muita diferenca para a garotada; meu primo achou o maximo fazer escala em Assuncao) custava mais de mil dolares, fora as taxas de embarque. E os pais realmente ricos enchiam a petizada de notas verdes para que a viagem se pagasse em compras na free shop e/ou na revenda dos dolares no paralelo. Posso jurar que muitos desses viajantes mirins fizeram carreiras em redacoes e universidades esbravejando contra o maldito imperialismo ianque. Vovo' Stella, descanse em paz.

Ráqueres cercam Wunderblogs.com? (2)

Aqui lembraram da Dorinha, a nova personagem da Turma da Mônica que é cega, ops, diz de si mesma que "não enxerga".

Mauricio inventa essa personagem porque é um homem de visão.

Ao mesmo tempo entra no ar um tal de Bloguinho, um mlk ki fala komu td mundu ixkrevi na Internet, kkkkkkkkkk.

E antigamente era o Chico Bento que recebia parecer negativo do MEC (imagino sempre uma junta de pós-doutorados com bigodes de Nietzche e chapeuzinhos do sobrinho do Pateta) por falar igual a um habitante de Resende. Quer dizer, os Chicos Bentos da Mauricio de Sousa Produções é que caíram de joelhos em seu deslumbramento. A revista Cebolinha, pela lógica, devia ser substituída por um fotolog.

Ráqueres cercam Wunderblogs.com?

Portanto, aqui vai o comentário que falta lá:

Em verdade vos digo: se usuário normal desse valor a interfaces gráficas bonitinhas, teria pagado o preço de um Mac desde o começo. O que hoje ninguém ousa admitir é que, naquele tempo, ninguém em sã consciência engolia visual afrescalhado. Fora isso, o único argumento contra a janelice era o risco da ditadura da interface única. Titica de touro. No tempo do DOS cada um fazia interface como lhes desse na telha. O Windows 3.1 mandou para escanteio o modo texto, mas seu mandato visual durou pouco: logo veio a explosao da Internet a bordo dos browsers gráficos, dentro dos quais, novamente, cada webdesigner faz a interface que achar melhor.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Mail disorder heaven (2)

Voltando rapidamente ao assunto... O assunto é grande e não há muito tempo disponível para se falar de todos os catálogos inúteis (apesar de voluntariamente solicitados pela Grande Rede) que tenho recebido pelo correio. É estritamente necessário separar o joio do trigo. Nem tudo que há em Google Catalogs tem versão em papel disponível para outros países. Mas, passando um pente fino, há verdadeiros achados.

Se eu tivesse uma loja qualquer, teria achado o máximo o catálogo Hubert. Entrei no site em 17 de novembro, no dia seguinte as 868 páginas do catálogo já estavam no correio a caminho de minha residência. Nessa brincadeira, gastaram 22 dólares de frete.

E foi apenas uma dentre muitas experiências de sucesso... Depois conto o resto.

domingo, dezembro 05, 2004

Primeiro passo para a bricolagem: seja tratado com desprezo

Não vou dizer o nome da loja para escapar de processos, mas quem já passou pela situação saberá reconhecê-la.

1) Site? Que site? A poderosa rede de home centers não tem site brasileiro: só uma tradução para o português da página internacional, no que há um oceano de diferença. Portanto, não adianta usar o browser para ter uma leve idéia do que escolher dentre os 8713264873612 itens da loja: só indo lá mesmo.

2) Viaje. Um colosso comercial daqueles só cabe onde o metro quadrado de terreno seja suficientemente barato e a presença da loja não cause (muitos) problemas de tráfego. Enfim, em lugares relativamente distantes. Gaste gasolina. É a sua, não a deles.

3) Tenha tempo. Há coisas demais para serem vistas e não serem encontradas, pois umas escondem as outras e a equipe de funcionários não ajuda. Não bastasse a longa viagem, tempo perdido não volta mais. É o seu, não o deles.

4) Seja ignorado. Metade dos funcionários faltou ao serviço justamente naquele dia. Os que compareceram não podem atender porque estão misteriosamente circulando fora de suas respectivas seções. No entanto, só eles podem conferir os preços que faltam nas gôndolas, pois nem mesmo há máquinas leitoras de códigos de barras. Sim, no colosso comercial é preciso enfrentar uma fila para um funcionário digitar o código da mercadoria num terminal (modo texto - ai, ai).

5) Acredite no sistema. A loja oferece vários serviços para quem vai construir ou reformar. Quem se importa se não cumpre o que promete? Se as máquinas da serraria estiverem com defeito, você vai ser o último a saber. Não, não, não: com isso, ninguém lá está comprando o seu tempo.

6) Chegue cedo na fila. Pensa que, depois disso tudo, você vai ser atendido rapidamente na saída?

7) Pague caro. Quem mandou dispensar a opinião dos iniciados e meter-se à besta de comprar material em loja de amadores? Se você já pensou em ir a uma dessas, é porque você mora numa cidade grande, onde há mil opções mais baratas, desde que você possa achar uma vaga nas proximidades ou consiga carregar suas compras sozinho. De resto, seria como Gary North diz do Wal-Mart (o americano, não o relativamente modesto do Brasil): passar por aquelas filas é trocar tempo por dinheiro. No caso do home center, nem isso.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Isto é incrível

Não dá para confiar nesses posts por controle remoto. Já que o SBT Blues I não saiu, leia-o aqui em primeira mão:

Vodu é pra jacu.

terça-feira, novembro 30, 2004

SBT blues III

Chamando doutor Hans Chucrute!

SBT Blues II

Quando voce vai embora e eu fico... Choro... Choro... Choroooooo...

Essa onda de saudosismo anos 80 representa a própria diferença entre o ser e o parecer, entre a existência real e a impressão nas cuquinhas frescas e sem referência.

Sobre a geração baby boomer, um livreto diz que os longa-metragens de animação da Disney, com suas cores berrantes e atuações alucinadas, foram o verdadeiro pano de fundo das trips psicodélicas. Uma vez que as drogas não inventam imagens (só trabalham com o que o usuário já tem na cabeça) e a TV era em preto e branco, de onde mais tirariam aquele mundão de cores e fantasias?

Mas a brincadeira foi longe demais. Neguinho tem 3 anos de idade, ouve uma música over and over (não consegue escapar, pois toca sem parar no rádio). Causa uma impressão nas mentes. Como qualquer modismo de verão, a música mergulha no justo ostracismo. Discos de vinil são doados ao garrafeiro, fitas piratas são gravadas por cima, cantoras gostosinhas engordam e vão viver como donas-de-casa no subúrbio. Aí um animador-reciclador da cena contemporânea redescobre a música para sua patota. Todo mundo acha o máximo, mas ninguém consegue explicar o que a música em si tem de especial além de transportar o ouvinte de volta a um tempo de pouca preocupação e muita arrogância.

Música dos anos 80 é Sigue Sigue Sputnik, que não existia antes nem manteve existência real depois. A banda tinha um tema, montado sobre a guerra fria. Depois não houve mais espaço para União Soviética nem para perucas esquisitas. Sim, de um ou outro jeito, apesar dos intervalos, o SSS continuou a existir. Mas ou era uma remontagem do antigo, ou era uma atualização que os fãs sempre acharam chinfrim. O resto pode ser requentado ad infinitum.

Filmes anos 80, a mesma coisa. Todo mundo estima o filme mais porque foi visto por todo mundo que era alguém na sociedade ocidental civilizada (ou passava na Tela Quente/Sessão da Tarde, o que dava no mesmo) em seu tempo de criança. Fico com Paulo Francis: vá perguntar para os fãs do que é que eles lembram de marcante dos filmes-pipoca dos quais tanto gostaram. Não sai nada.

Já era grandinho o suficiente para entender as graphic novels, por isso é que achei tão baixo seu (como dizem nos videogames) replay value. Estou sendo muito cruel? Não escapa nada? OK, OK, Vanusa Spindler e três campeonatos de Nelson Piquet significam alguma coisa, não que um fenômeno tenha algo a ver com o outro.

Os anos 80 tiveram salvação. Foi em 1980 que um visionário hippie recebeu uma mensagem interplanetária que mostrava o circo de horrores que nos esperava nos anos seguintes: calças cigarette, Atari 2600, Aids, mullets, Ritchie, Plano Cruzado, Malt 90, programas da Xuxa, discos da Xuxa. Só uma intervenção das alturas poderia nos afastar desse castigo! O visionário convenceu gente suficiente que um OVNI desceria nos campos verdejantes de Casimiro de Abreu, uma cidade fluminense que ainda usava telefone a manivela, sem que ninguém percebesse que há uma diferença essencial entre uma nave espacial extraterrestre e um objeto voador que não é chamado de "não identificado" por acaso. Milhares de doidões fizeram vigília na pista de pouso improvisada num comovente espetáculo de cantorias violonísticas, ritos esotéricos e aditivos químicos que faziam muita gente ver discos voadores onde não existiam. As inteligências extraterrestres viram aquilo a uma distância segura e concluíram: "somos inteligências, não podemos nos misturar com essa gentalha. Vamos embora!" O assistente: "Mas e o visionário, vai ficar lá embaixo com cara de tacho?" "Por isso mesmo."

segunda-feira, novembro 29, 2004

Novo template!

Mas ainda não foi solucionado o problema com o Previous Posts: qualquer acento bagunça tudo. Sugestões?

O crime que não houve

Tenho que tirar o chapéu para Cora Rónai na coluna de hoje. Ela, como eu, não achou crime nenhum no tal esquema ciberpornográfico que funcionava no Rio até ser estrepitosamente estourado pela polícia na última quarta-feira. Não que eu me interesse em gastar meu tempo com esse tipo de diversão. Mas uma proposta profissional me levou a conhecer por dentro o funcionamento de uma dessas produtoras. Se tivesse encontrado alguma conduta criminosa, não teria hesitado em denunciá-la.

Ano passado respondi a um anúncio de jornal procurando pessoas com experiência para conduzir salas de bate-papo. Compareci no local para uma entrevista e uma pequena experiência.

O estúdio era dividido em saletas isoladas, às quais não tive acesso físico, cada uma ocupada por uma garota em trajes sumários (não nua) e um nome-clichê qualquer, uma câmera operada por controle remoto, um alto-falante e um teclado. A câmera transmite tudo para o site enquanto taradões do mundo inteiro (menos do Brasil) entram numa sala de bate-papo e conversam em modo texto com a garota.

Mas é um pouco demais esperar que as modelos-e-atrizes consigam fazer poses desinibidas, operar o controle remoto da câmera e participar de um chat em inglês fluente. Nesta última tarefa é que entra o time de especialistas em bate-papo, enquanto as garotas só fingem que digitam.

É um trabalho que exige um certo talento. A criatividade dos digitadores é fundamental para atrair os usuários -- e seus cartões de crédito -- para as desinibidas salas privativas. Mas a firma paga muito mal, em longos expedientes e poucos intervalos, sem qualquer garantia formal ou informal além do contrato de prestação de serviços. Acendeu a luz amarela; ainda assim, não vi coisa alguma que merecesse ser denunciada.

Ou a polícia estourou o tal "bordel virtual" pelos motivos errados, ou não se incomodou em revelar os possíveis motivos certos. Nem uma palavra sobre exploração de menores, escravidão sexual, sonegação fiscal, falta de alvará, lavagem de dinheiro ou vínculo com organizações mafiosas. Pelo noticiado, as moças não sofriam sequer "assédio moral", o novo modismo fascista dos sindicatos. Se sofressem, sairia nas manchetes.

Mas notem a seletividade do precedente.

Se exibir-se diante das câmeras é crime, há um monte de produtoras de filmes que só não são garfadas porque não são taxadas de "virtuais". Ainda assim, um americano e um venezuelano foram presos por exploração de casa de prostituição e outro sócio americano está sendo procurado pela polícia. Depois dos pivetes, é a vez da polícia entrar na temporada de caça aos estrangeiros. A delegada diz que o tal site faz parte de uma organização internacional. Parabéns. Deve ser a única multinacional a se instalar no centro do Rio nos últimos dez anos. O site atendia unicamente a clientes estrangeiros, bloqueando acessos de usuários do Brasil, o que na cabeça das autoridades policiais federais deve ter alguma coisa a ver com a política arrogante e unilateralista da doutrina Bush. Os clientes pagavam em dólares. A vergonha de receber uma moeda tão desvalorizada deve ser mesmo um crime. A imagem das garotas era exportada pela Grande Rede. Riquezas nacionais, como a beleza das mulheres, não podem ser entregues à rapina do Primeiro Mundo nem virtualmente.

O mais estranho é que um site com um faturamento estimado de 100 mil reais por mês parecia ser incapaz de fazer o mesmo que todas as "casas de massagem" e "centros de lazer" que funcionam como bordéis nada virtuais: manter as portas abertas na base da propina. Pelo visto, os estrangeiros donos do negócio passaram um pente fino na lei, concluíram que a transmissão das imagens das meninas não feria nenhum artigo do Código Penal e pensaram que a lei seria interpretada a seu favor, de modo que não precisariam molhar a mão de ninguém. No Brasil, onde não se consegue nem vender chiclete na esquina sem se dobrar ao poderoso do pedaço. Otários.

Bad, bad server. No donut for you.

Chove e chove, mas isso nada tem a ver com as falhas do Orkut. Nada funciona direito. Uns 70 por cento de brasileiros (não vou me dar ao trabalho de reconferir as estatísticas, se é que o Orkut não falharia também ao exibi-las) num site até hoje despreparado para não-americanos. Sem contar os usuários brasileiros que dizem que são de outros países, na esperança de que os malditos servidores imperialistas ianques passem a tratá-los melhor. É uma realidade inescapável. Antigamente um grande site precisava temer ataques DDoS, coisa de picaretas. Hoje precisa rezar para não virar modismo de honestos e inocentes bicões brasileiros. Um dia a Google Inc. vai notar o tamanho do abacaxi do Orkut. O site está em eterna versão beta. Um dia vai cobrar pelo serviço. Por enquanto, tem pelo menos 70 por cento de usuários que se acham bons demais para pagar um centavo que seja pelo serviço e ainda pensam que estão em casa. Os incomodados se mudaram, o que diminui ainda mais a chance de o Orkut conseguir usuários pagantes. Toda essa galera brasileira é boa para fazer número e valorizar o negócio, como se fez tanto na bolha pontocom. Quando chegar o dia do juízo, o Orkut vai ter que começar a cobrar, o que equivale a desplugar a maioria dos brasileiros, o que -- na cabeça do usuário prejudicado -- é motivo para conflito diplomático entre Brasil e Estados Unidos.

Ou a Google Inc. acaba com o Orkut, ou o Brasil unido acaba com a Google Inc. afundando o Orkut. Vamos lá, gente bronzeada! O impávido colosso ainda chegará lá.

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