sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Ainda sobre o assunto...

Mais por menos


Alguém ainda se surpreende com as denúncias estrepitosas da IstoÉ Dinheiro sobre a má situação do UOL? Quem tiver motivos sérios para continuar pagando a assinatura, por favor, levante o mouse. Endereço e-mail consegue-se grátis em qualquer biboca - e, quase sempre, com direito a sistemas de webmail bem superiores. Se a questão for o acesso discado, os concorrentes oferecem, sem cobrar um centavo. No entanto, disposto a tirar suquinho do filão dos modems e das linhas telefônicas, o UOL montou seus próprios meios de provimento discado e deixou de renovar os contratos com seus franqueados. Os provedores "nanicos" que se abrigavam sob o guarda-chuva do UOL foram deixados na mão. Os usuários foram os últimos a saber que não só perderam acesso aos números dos provedores de costume, como agora dependeriam de um programa específico, o Discador, para encontrar os novos números "automagicamente". Como o UOL pensa que os usuários ejetados obteriam o Discador? Pelo iG?

Resta o diferencial do conteúdo, muito bom, mas que virou uma brincadeira cara de baixo retorno. Ainda assim, o usuário do UOL já não tem mais acesso ao conteúdo da Abril nem pagando: com ou sem portal, a Abril decidiu montar seu próprio site. Sinal dos tempos.

Antigamente não havia grandes portais, só alguns grandes provedores que atraíam audiência por sua própria natureza. Lá pelos últimos anos do milênio passado é que os brasileiros adotaram, tardiamente e fora de contexto, o modismo internacional dos portais, marcas fortes em torno das quais orbitava o conteúdo de qualidade (ou seja, o que dava audiência e mantinha os internautas conectados). Mas isso fazia sentido no tempo da bolha pontocom. Os portais, tornados empresas, confiavam nos investidores para pagar a conta do banquete. Quanto mais grátis, mais barulho; quanto mais barulho, maior o sucesso na Nasdaq.

Só que em pouco tempo multiplicaram-se os motivos para o usuário se manter online o máximo de tempo sem depender do produto (e do filtro) dos portais. Primeiro, Napster e similares hiperturbinaram o troca-troca de arquivos que já era uma das grandes atrações do IRC. Segundo, o Google mostrou quem é que manda entre os sites de busca do ciberuniverso: toda a informação relevante da Internet estava ao alcance dos dedos do usuário. Terceiro, os blogs se tornaram uma fonte de dados diversificada, independente e incontrolável- e, para seus hospedeiros, um Santo Graal da mídia, pois vendem anúncios sem ter que se dar ao trabalho de pagar pelo conteúdo. Quarto, com o acesso por banda larga oferecido pelas companhias telefônicas e operadoras de TV a cabo, alguns provedores destacados ganharam da Anatel uma confortável reserva de mercado: os usuários são obrigados a assinar um dos provedores "eleitos", mesmo que dele não aproveite nenhum conteúdo e que a conexão normal não passe por ele em nenhum momento (é verdade que, nesse setor, há uma disputa de mercado baseada no fornecimento de conteúdo exclusivo. Mas revoguem a ordem da Anatel e vamos ver quanto realmente vale o show).

Como os usuários querem se manter conectados, pouco importa se é para ler os sonetos de Shakespeare ou um blog "kkkkkk pow ae kra blz valew", as companhias telefônicas é que se dão bem. A mesma empresa que opera os telefones fixos é a que tem portal, tem provedor grátis, tem provedor pago e ainda tem serviço de banda larga. Se não ganha numa ponta, ganha mais ainda na outra. Um dia o UOL vai chegar a essa altitude olímpica... quando parar de esperar a segunda bolha pontocom.

*****

Hoje meu computador tem dois HDs que nem são grandes coisas. Ainda assim, a dupla fornece uma capacidade total quase duas mil vezes maior que a do primeiro disco rígido que já tive, há mais de dez anos. Quem viveu aquele tempo sabe que não estou exagerando. Difícil mesmo mesmo é acreditar que os dois HDs novos custaram, hoje, menos que o único HD usado naquele tempo.

Nunca é suficiente salientar a importância desse processo para a difusão da informática. Passeando pelas tabelas de preços da revista Byte de agosto de 1984, um IBM-PC padrão custava 3.354 dólares - no tempo em que a moeda americana era bem mais valorizada - porém, comparado a um Apple II ou um Macintosh, trazia poucos atrativos para o usuário comum. A oportunidade de lucrar atraiu uma chuva de concorrentes. O PC original foi suplantado pelo XT e, sucessivamente, pelos 286, 386, 486 e a família Pentium. Cada um mais barato que o outro, contra as previsões de muitos e os desejos de meia dúzia.

Por volta de 1998 o preço do computador padrão, com especificações decentes para o uso do dia-a-dia em tempos de Internet, começava a arranhar o piso dos mil dólares. Os grandes gênios do pensamento digital não acreditaram. Acenderam o fogo de um debate inútil: o micro baratinho dá mesmo para o gasto ou só existe para enganar trouxas? Antes que dessem o debate por encerrado, já não havia mais piso: pagar mais de 999 dólares por um computador virou coisa de profissionais hiperespecializados, jogadores fissurados e otários com dinheiro sobrando. Sem falar que, cada vez mais, dispositivos como MP3 players portáteis, telefones celulares, palmtops, tocadores de DVD e câmeras digitais dividem tarefas com computadores tradicionais.

Como se a queda dos preços dos novos já não fosse bastante surpreendente, a desvalorização dos usados desafia qualquer cálculo de depreciação. O ilustre usuário pode chorar à vontade, mas o valor dos micros antigos cairá inexoravelmente. A não ser que seja um Mac 512 da Unitron, o clone nacional que (praticamente) não houve e virou peça de colecionador. De resto, toda hiper-mega-workstation um dia vai parar no balcão de ofertas de sucata.

No entanto, há uma crença de que os computadores podem continuar sendo usados por todo o sempre, desde que para fazer sempre as mesmas coisas. Teoricamente, se há alguns anos um 486 servia perfeitamente para editar textos, é só mantê-lo com os mesmos programas instalados e ele continuará editando textos tão bem quanto antes.

Na prática, não há ilhas. Além de custar em energia elétrica e suporte técnico praticamente o mesmo que um computador novo, o antigo terá que encarar o tráfego de rede de hoje, os vírus de hoje, as falhas de segurança de hoje -- cortesia de sistemas operacionais mal reparados e do talento infinito dos terroristas digitais. Que tal tentar rodar um antivírus atualizado num 486? Pois...

Aí entramos numa situação aparentemente difícil: encontrar uma medida razoável de quando o computador pode ser aposentado. Convide-se a um momento de auto-análise e calcule quantas vezes o computador velho se pagou durante seu período de atividade. Não somente em termos de dinheiro: o importante é avaliar tudo que você fez com o micro que não poderia ter feito de forma equivalente usando outros meios. Isto vale até para videogames -- ou aquele seu Atari 2600 foi um mero sugador de verbas?

Um dia, porém, o investimento deixará de dar retorno: ficará mais caro manter a máquina velha do que trocá-la por uma nova. Aí, sim, você poderá se despedir respeitosamente do computador de outrora: "Foi bom... enquanto durou".

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